06/10/2008


A FUTURA RELAÇÃO EMPRESA-USUÁRIO

O constante avanço tecnológico tem dado as empresas de fornecimento de serviços, recursos para um controle cada vez maior sobre seus usuários, isso vem causando um distanciamento cada vez maior entre os que dirigem e os que utilizam seus serviços.
Em comparação há poucos anos passados, o homem vive hoje, uma mudança tão vertiginosa, que é só reparar na evolução dos seus aparatos tecnológicos, transformados em utensílios utilizados por usuários cada vez mais dependentes. Os que nasceram há mais de vinte anos, provavelmente percebem bem essa mudança.

A troca de informação é o que mais sinaliza para o progresso do homem, as pessoas com mais poder de interatividade, estarão mais aptas a evoluir do que as outras. Funciona como uma seleção artificial, ou seja, para nos comunicarmos, dependemos de aparelhos colocados à venda no mercado por incorporações que dominam setores da comunicação no mundo inteiro, esses aparelhos fornecem serviços de informação ao usuário, e ao mesmo tempo transmite dados do usuário ao fornecedor.

Um executivo que possui uma aparelhagem sofisticada de comunicação (celulares ligados em rede wi-fi, com recursos que possibilitam acessos a dados atualizados em cada minuto, palmbooks, notebooks, HDs de bolso, webcams na ponta da caneta que filma e fotografa, acesso rápido na web, softwares de ultima geração que enviam mensagens de textos e imagens para qualquer lugar do mundo em segundos), pois bem esse executivo está muito mais munido para uma concorrência em qualquer setor, dos que não tem acesso a tal tecnologia, isso não significa que esse profissional é intelectualmente superior ao outro, porém o primeiro faz parte de uma evolução tecnológica do ser humano que a teoria da evolução de Darwin não previu.


Este situação é crescente, e tem causado uma mudança radical no comportamento e na relação humana, pois existem hoje dois extremos distantes na pirâmide social, de um lado o exemplo de individuo que não tem acesso à tecnologia alguma, vivendo como na idade média ou pior na pré historia, precisando ainda de lenha para obter o fogo. E do outro lado esses Semi-Deuses que regem milhares de vidas por todo o mundo, com suas poderosas ferramentas tecnológicas. É assim que funciona, a hierarquia social segue o acesso à tecnologia, na base os Low-Tec, e na ponta da pirâmide os Hi-tech.

Quando se usa um aparelho de celular ou se acessa a rede através de computadores, esta o usuário acionando uma rede de satélites que orbitam ao redor da terra, e pertencem a incorporações cada vez mais desconhecidas dos que dependem delas.


Engana-se quem acha que não faz parte desse ciclo vicioso de dependência, pois qualquer um hoje em dia é vitima dessa articulação, basta ter qualquer serviço comum ao homem atual, um exemplo, é só tentar falar com algum diretor de uma empresa fornecedora de qualquer serviço, seja de comunicação, fornecimento de energia de água etc... O usuário vai primeiro ter que utilizar o telefone ou a Internet, pois ele provavelmente não terá acesso físico, (se por um acaso ainda existir na cidade um escritório dessa fornecedora, em um futuro muito próximo não terá mais), pois bem irá esse usuário ter acesso a uma gravação onde seguindo as instruções da maquina irá teclando números de acesso a informações desejadas, como: tecle 1 se você já é nosso cliente, tecle 2 para conserto... Caso ele erre as instruções terá que voltar para o inicio da gravação, (existe por enquanto em algumas situações a opção de no final falar com uma atendente que foi treinada para dizer não mais que: sim senhor não senhor, desculpe senhor, obrigada por utilizar nossos serviços senhor, uma boa tarde senhor).

VOCÊ QUE FREQUENTEMENTE ENFRENTA FILAS; SEJA NO BANCO, NO HOSPITAL, NA LOTERIA, PAGANDO CONTAS, COMPRANDO PÃO, OU SEJA QUALQUER TIPO DE FILA.

MANDE-NOS FOTOS, UTILIZE A CAMERA DE SEU CELULAR OU SUA DIGITAL PORTÁTIL

E FOTOGRAFE FILAS, CRIAREMOS JUNTOS A VIDEO-INSTALAÇÃO:

ENVIE PARA O E-MAIL: flavioemanuel@gmail.com

Ontem passando pela rua que bifurca a Conde da Boa Vista, bem no meio do caminho da minha casa, avistei sondas flutuando em uma boa quantidade sob minha cabeça, com mensagens neônicas, piscando como sinalizadores, e o odor de água que apodrecia calmamente bipando em meu celular ao mesmo tempo que flutuavam as sondas, eram balões de Helio de onde pendiam barbantes com as mensagens, lúdicas, artísticas, no display do meu celular piscava e piscava, a cobrança, minhocas enroscadas em anzóis, e enroscadas em meus dedos perfurando cada um deles, limitavam meus movimentos, para que não apontassem para as sondas, e eu pensava:
-não, não vou repetir frases.
-não, não vou encardir.
-quem quiser que me escute.
Na esquina da minha casa tinha stenciado:

COLABORE COM O ARTISTA.

A IDÉIA

Em Garanhuns interior de Pernambuco onde fui realizar um workshop, sobre arte e tecnologia no ano 2000, presenciei uma cena muito engraçada. Fui retirar um dinheiro nos caixas rápidos que ficam em uma sala antes de entrar nos domínios do banco, eu estava nessa sala quando um senhor muito antigo com um fardão e cheio de medalhas, que deveriam muito lhe honrar, acho que deveria ser um ex-combatente da 2° guerra, pois bem ele tentava entrar nessa sala por uma porta automática, com dispositivos para detectar metais, a porta tinha uma gravação que era acionada quando se portava algum objeto de metal, falava a porta:

- Por favor, senhor recua até a faixa amarela e coloque seus objetos de metais na caixa ao lado.

- Não coloco nada, quem é você pra me dar ordem sua porta miserável... -retrucava o velho.
Esse velho poderia ser cliente do banco desde sua inauguração, poderia conhecer o gerente geral em sua época, mas dificilmente ele chegaria hoje ao presidente daquela agencia, e ele o presidente por sua vez dificilmente terá acesso ao presidente geral daquela instituição, que por sua vez desaparece a cada dia que passa, se torna uma entidade fora de registros ao nosso parco aparato sensorial orgânico.

O homem comum hoje é um ponto em vários gráficos, monitorado até quando dorme, seu celular seu cartão de créditos, seu endereço eletrônico, sua movimentação bancaria, deixam um rastro virtual que o localiza em qualquer lugar do mundo, quem domina essas informações são os que imperam as nações, quanto ao cidadão, só resta o direito de seguir esses novos sacerdotes das novas tecnologias.
Roteiro BAUER 05

Efeito de um monitor sendo ligado. A tela fica escura e em off uma voz:
-Olá! (pausadamente) chamam-me BAUER 05, venho de um vertente conceitual, minhas experiências sempre foram artísticas, minhas intenções sempre foram voltadas para transformações e a evolução do homem...
-Mas tudo isso é passado, larguei uma pesada bagagem, deixei ficar no século passado com todas as outras coisas obsoletas. E hoje não sei bem o que sou.
Corta-
Cena de rua em slow motion – um grande centro de metrópole com todos os ruídos de uma grande cidade. Carros passando, pessoas, buzinas, ambulâncias, sirenes, etc...
Cenas do Bauer 05 andando pelo centro, atravessando pontes perdido na multidão (em slow moction)
Voz em off:
-Atualmente moro em Recife periferia do Brasil , por algumas razões, minhas antigas pesquisas me levaram a um comportamento investigativo, ativista até. Olho a movimentação da cidade, vendo os carros passando, os ônibus, aviões, helicópteros, mas não consigo enxergar nenhuma pessoa, nelas enxergo autômatos, teleguiados, Tecno-escravos, monofásicos com uma única função; serem usuários, e sobre as suas cabeças orbitam os satélites de seus senhores no firmamento.
Corta-
Cenas de satélites na órbita da Terra com a música “Discurso do Homem Repolho” de fundo, imagens de satélites se aproximam da Terra, simulações de transferências de dados, fibras óticas em alta velocidade processamentos, gráficos, números, cabos de computadores e no extremo , detalhes de um fone de ouvido com um microfone abrindo para o rosto de uma atendente de Telemarketing:
-Bom dia, Senhor!
Corta para-
Plano aberto,
Cena de um escritório de uma empresa de serviços, pessoas esperando para serem atendidas, Bauer 05 negociando com uma atendente sentado em um bureau de atendimento publico.
Voz de Bauer 05 em off:
- Diante de mim uma atendente da CELPE, (companhia elétrica que me fornece energia elétrica e que todo mês cobra por isso), que sob o efeito de minha intervenção seus músculos do rosto desencadearam-se em movimentos caóticos, não permiti que eles restaurassem seus movimentos habituais. Levantei meu velho megafone e diante dela falei, falei como um discurso, mesmo que olhasse diretamente para ela falei para todos naquele recinto.
- - Tudo faz parte de um projeto maior, que desenvolvo já faz um tempo, chamo essa parte da experiência de TELEMARKENTING LOVER’s.
- Desculpe senhor?- ela não entendia nada.
- É por isso que me encontro aqui, com essas contas antigas.
Voz de Bauer 05 em off: Com a outra mão agitei bem auto todas as doze contas, para que todos vissem.
- Pode me explicar direito seeenhooor.
Voz de Bauer 05 em off: Claro que podia explicar direito, afinal já tinha explorado todos os ângulos, todos os efeitos e resultados que essa experiência haveria de causar.
- Mas claro que sim! – respondi.
-Sim, continue. - Já me olhava incrédula.

- Pois não. Decidi não mais pagar as contas e iniciar um dialogo com as empresas fornecedoras.
As sombrancelhas dela levantadas.
Continuei.
-e descobri que isso só seria possível através do telefone ou por um serviço bem precário de suporte on-line.
- Então iniciei meu dialogo por telefone. daí vem o titulo, entendeu? TELEMARKETING LOVER’s.
- Não entendi nada até agora.
- Tente você falar com uma atendente por telefone, sei que sabes do que estou falando. “Pois não seeeenhor”, “certo seeeeenhoor” e “vou lhe passar para o setor responsável Seeeeenhoor”. E esse setor responsável, nunca chega e ficamos escutando uma gravação das vantagens de ser cliente da empresa.
- E o que isso tem haver com essas contas atrasadas?
Ela já perdia a paciência, isso me proporcionava uma sensação muito boa.
- Calma dona, calma que eu vou falar...
tudo fazia parte da minha ação. E meu megafone proporcionava-me um prazer inebriante.
- Sobre o fato de sermos, quando digo ‘sermos’ falo de todo o Terceiro Mundo, pois bem sermos usuários de empresas estrangeiras que dominam o nosso fornecimento, de tudo aquilo que nos é vital, para uma existência tranqüila, ou seja: água, luz, telefone, Internet, e todos os serviços atuais.
fui alterando a voz.
- E quando eu tento falar com alguma dessas empresas, eu falo com quem? Ou um portal de voz, ou uma atendente que me faz esperar por um setor responsável.
-Calma, senhor.
- Eu estou calmo, só preciso terminar meu raciocínio.
- Então pesquisei os vários números 0800 e 0300, fiz uma lista que serviria bem para meu propósito. - estava explicando meu projeto.
- E decidi declarar meu amor a elas, as telemarketings.
Eu e minhas doze contas atrasadas...
Eu já bailava...